A Ascensão e Queda de Ícones da Internet: Uma Reflexão Sobre Fama, Gestão e Ética

 




A era digital democratizou a fama, permitindo que indivíduos simples se tornassem fenômenos globais da noite para o dia. Contudo, a ascensão meteórica no mundo online frequentemente vem acompanhada de complexidades, desafios éticos e a dura realidade da gestão de carreira e imagem. As trajetórias de Luva de Pedreiro, Salt Bae e Mr. Beast, conforme detalhadas nas fontes, oferecem um panorama rico para a reflexão sobre esses temas.

Luva de Pedreiro: Do Campo ao Contrato, e as Sombras da Gestão

A história de Luva de Pedreiro é a quintessência do sucesso viral. Em 2022, após seus vídeos ganharem destaque, ele se tornou um ídolo para muitos, representando a esperança de um "menino simples" que mudaria sua realidade. A necessidade de um empresário se tornou evidente para gerir sua carreira, patrimônio e contratos.

Sua parceria com Alan Jesus, da ASJ Consultoria, especialista em marketing digital, inicialmente foi vista com bons olhos pelo público. As estratégias de Alan incluíam manter a imagem de Luva como um "garoto pobre que morava no interior" para gerar empatia, mesmo após Luva ter se mudado para o Rio de Janeiro. No entanto, o público começou a questionar as ações de Alan, notando sua constante aparição nas redes de Luva e o nome de sua empresa na placa de 100 mil inscritos do YouTube de Luva, sugerindo uma promoção pessoal em detrimento do influenciador.

A situação atingiu um ponto crítico quando Luva desabafou sobre cansaço e estresse, chegando a desativar suas redes sociais. A polêmica se intensificou com a notícia de que Luva tinha apenas R$7.500 em suas contas, apesar de contratos milionários como o de R$1 milhão com a Prime Video. O "tribunal da internet" rapidamente condenou Alan, resultando em ataques e ameaças contra ele e sua família.

O encerramento do contrato judicialmente, com Luva obrigado a repassar 30% de seus ganhos mensais até atingir R$5,2 milhões pela multa de quebra, gerou ainda mais comoção, reforçando a percepção de exploração. A chegada do ex-jogador Falcão como novo empresário foi celebrada, com muitos o vendo como um "herói" que salvou Luva. Sob nova gestão, Luva fechou contratos significativos, incluindo mais de R$1 milhão com o McDonald's e R$200 mil com a Adidas.

Contudo, novas controvérsias surgiram. Luva anunciou repetidamente que pararia a carreira, levantando suspeitas de estratégia de marketing para engajamento. A crítica mais grave, no entanto, veio com o lançamento da Luva Bet, uma plataforma de apostas em parceria com Falcão, mesmo sabendo que grande parte de seu público era composta por crianças e adolescentes. Essa decisão gerou questionamentos sobre as verdadeiras intenções de Falcão, especialmente após a revelação de que Alan havia recusado propostas de plataformas de jogos de azar, incluindo a F12 Bet (parceira da Luva Bet), por considerá-las inadequadas para o influenciador. A promoção massiva de apostas para um público jovem e vulnerável, sem preocupação com as consequências, levantou sérias questões éticas.

A percepção de Luva também mudou, com críticas à sua arrogância e falta de humildade após declarações como "eu sou o melhor da internet e tenho todos os contratos", resultando na perda de mais de 45.000 seguidores no Instagram em 11 dias. A reflexão final sobre Luva de Pedreiro sugere que sua queda pode ter sido causada por uma má gestão de carreira e pela ganância, que o fez perder seu "brilho" e autenticidade.

Salt Bae: O Chefe da Fama Viral e as Polêmicas Gastronômicas

Salt Bae, ou Nusret Gökçe, alcançou fama mundial em 2017 com um vídeo viral onde cortava e salgava carne de forma peculiar. Sua popularidade cresceu, atraindo celebridades e expandindo sua rede de restaurantes "Nusr-Et" globalmente. Sua fortuna hoje ultrapassa R$360 milhões.

No entanto, sua fama não se consolidou pela culinária excepcional, mas sim por uma grande estratégia de marketing nas redes sociais e, cada vez mais, por polêmicas. Menos de um ano após o vídeo viral, Salt Bae se envolveu em controvérsias:

  • Postou uma foto em frente a uma imagem de Fidel Castro, gerando críticas em Miami, onde muitos cubanos exilados residem.
  • Serviu um banquete luxuoso ao presidente venezuelano Nicolás Maduro, enquanto a população de seu país passava fome.
  • Um incidente em um de seus restaurantes na Turquia resultou em uma explosão com quatro turistas gravemente feridos, sem que as vítimas recebessem indenização ou que ele fosse condenado.
  • Ex-funcionários o acusaram de roubar 3% de suas gorjetas e de má conduta, levando a um processo por demissão injusta e um acordo de indenização de R$230 mil.
  • Críticas generalizadas sobre a péssima qualidade do serviço, comida seca e preços absurdamente altos, como um bife Tomahawk coberto com folhas de ouro por R$9.000, levou seu restaurante em Londres a uma das piores classificações no Trip Advisor.

A culminação de suas polêmicas ocorreu em dezembro de 2022, durante a final da Copa do Mundo, onde ele invadiu o campo, incomodou jogadores como Lionel Messi, segurou e beijou o troféu (que só pode ser tocado por campeões e chefes de estado), e até mordeu uma medalha. Este episódio gerou uma onda de críticas globais, o "cancelamento" nas redes sociais e uma investigação da FIFA, contribuindo para o declínio de sua fama e império. Embora tenha alegado amor pela Argentina e empolgação, a repercussão foi duradoura, com o fechamento de uma hamburgueria em Nova York e a redução de reservas em outros restaurantes. A questão persiste: suas polêmicas seriam uma estratégia de marketing para manter a relevância ou apenas o resultado de um ego inflado pela fama e dinheiro?.

Mr. Beast: O Filantropo Gigante e as Acusações de Fraude

Mr. Beast, James Stephen Donaldson, é considerado o maior YouTuber do mundo, com quase 310 milhões de inscritos, conhecido por seus vídeos de desafios e ações filantrópicas. Seu faturamento anual é de cerca de 700 milhões de dólares.

Recentemente, um ex-funcionário expôs graves acusações de fraude e manipulação, afirmando que Mr. Beast intencionalmente manipulava seu público, majoritariamente infantil, através de estratégias que associavam sua marca à confiança, recompensas e ações benéficas para sua empresa. As acusações incluíram:

  • Falsificação de vídeos com CGI, roteiros e atores pagos, como em "7 dias à deriva no mar", onde um time-lapse mostrava tendas vazias antes de um corte revelando pessoas.
  • Manipulação de desafios e resultados, com intervenções da produção para favorecer ou prejudicar participantes, e a participação de amigos, familiares ou funcionários como "competidores aleatórios". O exemplo de "MEC", um suposto competidor aleatório que na verdade era editor de Mr. Beast e morava em uma de suas mansões, e que ganhou um carro mesmo sendo o primeiro eliminado em um desafio, é particularmente notório.
  • Realização de "loterias ilegais", incentivando a compra de produtos (como camisetas) com a promessa de prêmios (celulares, dinheiro), sem comprovação da entrega ou legalidade, especialmente direcionado a um público infantil.
  • Venda de autógrafos falsos, com membros da equipe assinando camisetas no lugar de Mr. Beast, enganando fãs que compravam esperando um autógrafo autêntico.
  • Controvérsias com suas marcas de produtos: a barra de chocolate Feastables, que inicialmente prometia ser "mais saudável", mudou a fórmula para conter mais açúcar e calorias, e a Beast Burger, com combos hipercalóricos, contradizendo sua suposta preocupação com a saúde, especialmente a infantil.
  • Promoções enganosas, como o "bilhete premiado" em chocolates (que foi encontrado por outro youtuber, levantando suspeitas de manipulação) e o incentivo para crianças arrumarem seus chocolates em supermercados para concorrer a prêmios.
  • Preocupações com a segurança dos participantes em desafios, com relatos de ferimentos graves, falta de alimentação e cuidados médicos adequados.

Essas revelações, que levaram o New York Times a publicar um artigo sobre os riscos assumidos pelos participantes, abalaram a credibilidade de Mr. Beast, questionando a autenticidade de seus vídeos e a ética de suas práticas de negócios. A equipe de Mr. Beast respondeu com notas e advertências legais ao ex-funcionário, que é proibido por contrato de falar sobre as operações da empresa.

O Legado da Fama Digital: Autenticidade, Responsabilidade e o Preço do Sucesso

As histórias de Luva de Pedreiro, Salt Bae e Mr. Beast são microcosmos de uma realidade maior no universo dos influenciadores digitais. Elas levantam questões cruciais sobre:

  • A linha tênue entre autenticidade e performance: Até que ponto a imagem pública de um influenciador reflete sua realidade ou é uma construção estratégica?
  • A ética na monetização da influência: A busca por lucro justifica táticas questionáveis, especialmente quando o público inclui crianças e adolescentes vulneráveis?
  • A responsabilidade dos gestores e equipes: O papel do empresário é proteger o influenciador e sua imagem ou apenas maximizar os lucros, mesmo que isso comprometa a ética?
  • O impacto da fama e do dinheiro na personalidade: Como o sucesso pode levar à arrogância, à desconexão com o público e a decisões questionáveis?
  • A volatilidade da opinião pública: A velocidade com que a admiração pode se transformar em "cancelamento" e as consequências reais para a carreira e vida pessoal.

Esses casos nos convidam a uma reflexão crítica sobre o conteúdo que consumimos e as figuras que admiramos na internet. A verdade, muitas vezes, é multifacetada e difícil de discernir. É fundamental questionar as narrativas, ponderar as motivações e exigir transparência e responsabilidade daqueles que, por meio de plataformas digitais, moldam a cultura e influenciam milhões de pessoas. O império da fama digital é um terreno fértil para o sucesso e a inovação, mas também um campo minado para a integridade e a ética.

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