Sexóloga Revela: Pornografia Não é Vício (e Ninguém Fala Isso)

 



Além do Rótulo: Uma Reflexão sobre a Sexualidade e o Uso Problemático de Pornografia

No campo da sexualidade humana, muitas vezes é necessário primeiro "desaprender" para depois aprender. Muitos pacientes chegam ao consultório com visões construídas sobre protocolos e tutoriais rígidos, esperando que a terapia seja um "passo a passo" linear, quando, na verdade, trata-se de um processo individual de desconstrução para reconstruir uma visão mais saudável e autêntica.

O Equívoco do Termo "Vício"

Um dos pontos centrais para reflexão é a diferenciação entre o que o senso comum chama de vício e o que a ciência classifica como uso problemático de pornografia. Segundo as fontes, a pornografia não atinge os critérios técnicos do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) para ser classificada como vício. Essa distinção não é apenas semântica; ela é fundamental para o tratamento. Tratar o uso de pornografia sob a lógica do vício — como se fosse uma substância química da qual se deve manter abstinência total — pode ser iatrogênico, ou seja, pode piorar o quadro do paciente por não atacar a causa real do comportamento.

A Pornografia como Sintoma, não como Causa

A pergunta fundamental que deve guiar a reflexão não é "como parar", mas sim: "qual problema a pornografia está tentando resolver para mim?". As fontes sugerem que o consumo excessivo geralmente funciona como um mecanismo de regulação emocional ou como sintoma de questões subjacentes, tais como:

  • TDAH: Onde a busca por dopamina intensa e barata serve como um alívio imediato para a desregulação emocional e a inquietação.
  • Fobia Social: Onde a pornografia se torna um refúgio confortável para quem tem desejo, mas enfrenta dificuldades extremas de interação social.
  • Estresse e Ansiedade: Funcionando como um "catalisador" para relaxamento rápido após um dia difícil.

O Mercado da Culpa e os "Novos Inquisidores"

Existe hoje um poderoso viés mercadológico em torno da ideia do vício em pornografia. "Coaches" e influenciadores, descritos nas fontes como os "inquisidores do mundo atual", vendem cursos e métodos de passos que prometem clareza mental, mas que frequentemente levam a recaídas, pois não tratam a relação do sujeito com sua própria sexualidade. Esse discurso cria uma comoção popular que pressiona por políticas públicas baseadas em um modelo de tratamento que pode não funcionar, pois ignora a individualidade do processo terapêutico.

A Sexualidade como Necessidade Intrínseca

Diferente do álcool ou de drogas, das quais o ser humano pode se abster completamente para melhorar sua vida, a sexualidade é algo intrínseco à condição humana. Portanto, o tratamento mais coerente assemelha-se ao da compulsão alimentar: não se pode parar de comer, então o objetivo é melhorar a relação com o alimento. Da mesma forma, o caminho para uma vida sexual saudável não é a supressão, mas o entendimento dos gatilhos e a ressignificação da própria sexualidade.

Para facilitar a compreensão, imagine que a pornografia é como um analgésico potente. Se você tem uma dor crônica (causada por ansiedade, TDAH ou fobia), o analgésico mascara o sintoma e traz alívio. No entanto, se você focar apenas em "parar de tomar o remédio" sem tratar a inflamação que causa a dor, você viverá em um ciclo eterno de sofrimento e recaída. A verdadeira cura não está em jogar o remédio fora, mas em descobrir por que o corpo está doendo.

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